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São Paulo Vai Parar * por Stephen Kanitz

A cidade de São Paulo vai parar definitivamente em 2012, por
congestionamento terminal, e boa parte do Brasil parará como
conseqüência. Isso porque São Paulo é o centro administrativo do
Brasil. Mais de 50% das sedes das 1 000 maiores empresas deste país
estão sediadas na cidade de São Paulo. Os administradores dessas
empresas, em vez de planejar a produção do país, fazer orçamentos para
investimentos futuros, planejar a distribuição e logística, controlar
e minimizar os custos, intervir aqui e ali, estarão parados no
trânsito. Se usarem o celular, serão multados.

Infelizmente, a nossa elite, o governo, os empresários e os
intelectuais não sabem disso e não percebem o perigo. Muitos agem até
contra os administradores. Os seguidores de Adam Smith, acham que os
administradores em nada contribuem para a riqueza das nações. Eles
acreditam que produtos chegam aos nossos lares na hora certa, na
quantidade certa, ao custo certo, graças à "mão invisível" do seu Deus
"mercado". Outros acadêmicos, como Joseph Schumpeter e John Maynard
Keynes, acham que o crescimento depende do "espírito animal" dos
empresários e empreendedores com boas idéias e não dos administradores
que as fazem acontecer. Uma afronta a todo administrador.

Se você também pensa assim, leia A Mão Visível: A Revolução Gerencial
nos Negócios Americanos, de Alfred Chandler, escrito em 1977, nunca
traduzido para o português. Chandler refuta Adam Smith, Joseph
Schumpeter e a ingenuidade dos neoliberais. Alfred P. Sloan Jr., o
administrador da GM, bem como Henry Ford, já em 1917 perceberam que o
"mercado" não conseguiria produzir as 4 000 peças diferentes do
automóvel na quantidade certa, com a qualidade necessária, e muito
menos entregá-las na hora certa. Foram os primeiros a rejeitar essa
idolatria do mercado da Escola de Chicago e criaram estruturas e
empresas complexas para produzir tudo internamente, com a qualidade e
cronograma necessários. Se dependessem do "mercado", nenhum veículo
sairia funcionando.

O problema deste país é justamente este. Administradores públicos
treinados nas melhores escolas do Brasil são sistematicamente
preteridos para cargos de ministros, cargos de confiança e postos de
comando. Toda semana, o governo recebe 96 milhões de reais de impostos
dos 8.000 carros novos que entram em circulação na cidade de São
Paulo. Mesmo assim, estradas não são construídas. Isso porque falta a
"mão visível do administrador público", preterido governo após governo
por políticos e acadêmicos nem sempre com a experiência em
planejamento e gestão adequada. Em vez de mais impostos, mais taxas de
pedágio, mais dias de proibição para circulação de veículos - as
soluções apresentadas até agora - administradores públicos teriam
sugerido e feito o seguinte:

1. Investido boa parte dos 25 bilhões de reais de ICMS e IPI pagos
anualmente pela indústria automobilística em estradas, sistemas
viários e metrô.
2. Investido a totalidade dos 12 bilhões arrecadados pelo IPVA em
ruas, estradas e transporte público. Impostos que permitiriam
construir 20.000 quilômetros de estradas por ano.
3. Proibido estacionamento privado em vias públicas, especialmente de
caçambas de entulho, um uso privado de espaço público inaceitável.
4. Permitido aos táxis esperar em qualquer ponto, em vez de voltar
vazios ao ponto original.
5. Eliminado o rodízio. Oito por cento dos carros de São Paulo são
velhos, mantidos por famílias abastadas para ser usados como o "carro
do rodízio", que vive quebrando e congestionando o trânsito.
6. Instalado semáforos com contagem regressiva, para alertar o
motorista distraído da frente.

Proibir estacionamento em vias públicas requer planejamento. Gastam-se
quatro anos para construir estacionamentos verticais em cada esquina,
dobrando o fluxo trafegável da cidade. Não é uma lei que possa vigorar
no dia seguinte.

Se você está parado no trânsito e na vida, lute para que nossos
administradores públicos ocupem os postos para os quais foram
treinados. Pergunte que outras soluções eles oferecem para nossos
problemas. Entreviste-os, se você é um jornalista progressista
preocupado com o marasmo da gestão pública em geral. Eles são os
profissionais mais treinados e preparados que temos para planejar o
futuro deste país.

* Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 2065, ano 41, nº 24, 18 de junho
de 2008, página

 

   

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