Reginaldo Oliveira – É tempo de tolerância!

Outro dia eu e minha esposa tivemos a feliz ideia de ir ao cinema assistir ao filme Moonlight. Antes, porém, usuário das redes sociais, recebi alguns comentários do tipo “incentivo à homossexualidade”, “boicotem esse filme”, “a indústria do cinema incentiva a prática gay”, entre outros comentários neandertalmente homofóbicos. Sem querer estragar a surpresa do filme, vou me limitar apenas a dizer que o ponto alto é o momento em que o menino pergunta ao traficante o que é ser “bicha”. Surpreendentemente tem resposta de que “bicha” é o termo utilizado quando alguém quer desprezar quem é homossexual. Aí já valeu o ingresso! É tempo de tolerância!

A dor de quem é gay, pobre, negro e da periferia é abordada sem rodeios e se encaixa como que por encomenda aqui em terras brasileiras. Aqui, como em quase todos os lugares, o valor está na cor da pele e na opção sexual conservadora. Caso o branco e hétero tenha o ingrediente “muito dinheiro no bolso”, aí estaremos diante de verdadeiros semideuses. Não importa a origem, basta ter.

Os jornais têm nos mostrado diariamente o quanto temos sido roubados por gente branca e heterossexual que habita o topo da cadeia alimentar há anos e anos. Portanto, opção sexual, cor de pele e quantidade de dinheiro no bolso e o CEP de onde habita não define caráter de ninguém. A história é testemunha, basta conferir.

Trazendo o problema para a nossa realidade, é fato que meninos e meninas, sobretudo os que têm endereço postal na periferia, quando manifestam afeições pelo mesmo sexo são, invariavelmente, vítimas de duras perseguições em todos os seus ambientes, principalmente nas escolas. Perseguidos que sequer podem procurar apoio nas igrejas, visto que lá são tratados não como criminosos, de forma aberta, mas como “perigosos” e “contagiosos”. Um fora daqui light. O refúgio para a alma só mesmo nas religiões afro-brasileiras. Pelo que me consta só há um Jesus Cristo.

Ao fugirem dos ambientes hostis interrompem toda e qualquer possibilidade que têm de mudar suas vidas. Sem família, escola e, consequentemente, qualificação invariavelmente, resta-lhes como oportunidade de sobrevivência enfiar-se, sem registro de emprego ou qualquer garantia, nas cozinhas escuras e insalubres de bares e lanchonetes, com jornadas e cargas de trabalho acima do tolerável ou em pequenos salões de beleza com jornadas igualmente pesadas. Esses lugares, por mais que explorem seus trabalhos, são os únicos que os acolhem, portanto, têm lá seu mérito.

Moonlight é, portanto, um convite à reflexão, um excelente exercício de humanidade. Lembremo-nos, sempre, que opção sexual não define caráter.


Reginaldo Oliveira
Diretor de Comunicação

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